O produtor rural do Paraná que instalou painéis solares no telhado nos últimos anos está descobrindo um problema incômodo: os créditos de energia se acumulam na conta da distribuidora, mas não viram dinheiro no bolso. Enquanto isso, gestoras de energia por assinatura — que prometiam deságio na conta em troca do uso da área — começam a dar calote ou reduzir o desconto sem aviso prévio. A locação de usinas no Paraná surge como resposta a esses dois problemas. Em vez de gerar energia para compensar o próprio consumo ou ceder a área para terceiros em troca de promessa de economia, o produtor aluga a terra para uma desenvolvedora de usinas solares e recebe renda mensal fixa. O modelo descola a rentabilidade do produtor do risco de comercialização — e, em 2026, com o Fio B em 60% e o curtailment cortando 20,6% da geração solar, isso faz diferença.
O dilema do produtor rural que instalou microgeração e agora acumula créditos sem retorno
O Paraná é o estado com maior concentração de geração solar no campo entre Sul e Sudente: são 38.927 unidades rurais com painéis fotovoltaicos, somando 858,2 MW de potência instalada. Boa parte desse crescimento veio do programa RenovaPR, que já instalou 39,5 mil sistemas com meta de chegar a 100 mil até 2030. O problema é que o modelo de microgeração — em que o produtor gera energia, injeta o excedente na rede e recebe créditos em kWh — funciona bem para quem consome muita energia o ano inteiro. Para o produtor rural, o consumo é sazonal: pico na colheita, vale na entressafra. Resultado: créditos acumulados que viram 'energia parada' no sistema de compensação. E com o curtailment — corte forçado de geração por congestionamento da rede — já em 20,6% em 2025, gerando perdas estimadas em R$ 6 bilhões no setor, parte desses créditos pode nem ser integralmente compensada. O produtor fica com o investimento de R$ 30 mil a R$ 500 mil empatado no telhado e sem retorno financeiro efetivo.
O risco de calote das gestoras de energia por assinatura
Paralelamente ao acúmulo de créditos, outro movimento preocupa o produtor rural paranaense: o aumento da taxa de mortalidade de gestoras de energia por assinatura. O mercado de geração distribuída solar no Brasil deve encolher 20% em 2026, para R$ 31,8 bilhões, depois de já ter caído 12% em 2025. Nesse cenário de margens apertadas, gestoras menores — que operam com modelos de negócio frágeis — simplesmente quebram. Quando uma gestora fecha as portas, o produtor que cedeu área em troca de deságio na conta de luz fica sem o desconto prometido e, muitas vezes, sem conseguir reaver os créditos de energia que estavam em nome da cooperativa. O risco não é teórico: com o Fio B subindo de 60% em 2026 para 90% em 2028, a conta das gestoras fica cada vez mais apertada. Para manter a margem, algumas reduzem o deságio sem aviso prévio ou rescindem contratos unilateralmente. O produtor vira fiador involuntário do balanço financeiro de uma comercializadora.
Como a locação de usinas resolve os dois problemas
A locação de usinas — ou arrendamento de terras para geração fotovoltaica — funciona de forma diferente. O produtor não investe em equipamento nem cede área em troca de deságio na conta. Ele aluga a terra para uma desenvolvedora, que instala a usina, opera e comercializa a energia. O produtor recebe renda mensal fixa, independentemente de a usina gerar ou não, de a gestora vender os créditos ou de o Fio B subir. O risco regulatório e comercial fica todo com a desenvolvedora. Para o produtor rural que tem área ociosa ou de baixa produtividade, o modelo é particularmente vantajoso. Em vez de empatar capital em painéis que geram créditos que ele não consegue usar, ele transforma a terra em fonte de renda previsível. E sem o risco de endividamento: enquanto a microgeração exige investimento próprio ou financiamento (via RenovaPR com juro zero ou Pronamp), a locação exige capital da desenvolvedora, não do produtor.
O que o produtor precisa saber antes de assinar um contrato de arrendamento
O Ministério Público Federal emitiu em 2025 a Recomendação 30/2025, que estabelece parâmetros mínimos para contratos de arrendamento rural para energia solar. Entre os pontos principais: pagamento mínimo equivalente a quatro salários mínimos por hectare, prêmio anual de 2,5% da receita bruta da usina, revisão quinquenal obrigatória e vedação à renovação automática do contrato. O produtor que assina sem esses parâmetros pode estar aceitando condições abusivas. Outro ponto crítico: a duração do contrato. Usinas solares têm vida útil de 25 a 30 anos, e o contrato de arrendamento costuma acompanhar esse prazo. O produtor precisa avaliar se a renda fixa proposta compensa a indisponibilidade da área por três décadas. E, principalmente, precisa de cláusula clara sobre o que acontece se a desenvolvedora quebrar — quem fica com os painéis, quem responde pela recuperação ambiental da área, e se o produtor pode reassumir o controle da terra.
O que levar daqui
- Antes de assinar, verifique se o contrato segue a Recomendação 30/2025 do MPF: pagamento mínimo de 4 salários mínimos por hectare, revisão quinquenal, sem renovação automática.
- Se você tem microgeração com créditos acumulados, calcule se o aluguel da terra compensa perder a isenção de Fio B até 2045 — a conta muda para cada propriedade.
- Desconfie de contratos de assinatura que prometem deságio fixo sem explicar a absorção do Fio B. Em 2026, com 60%, margem apertada é regra.
- Exija cláusula contratual sobre falência da desenvolvedora: quem remove os painéis, quem recupera o solo e em quanto tempo.
- Consulte o IDR-Paraná ou o Sistema Faep antes de fechar negócio — ambos orientam produtores rurais sobre propostas de energia solar.