A ANEEL abriu nesta terça-feira, 7 de abril de 2026, a consulta pública nº 005/2026 para discutir a revisão tarifária periódica (RTP) da Copel. A proposta inicial: aumento médio de 19,20% nas tarifas, com entrada em vigor em 24 de junho. O impacto direto atinge 5,29 milhões de unidades consumidoras no Paraná — a maioria residências, onde a tarifa residencial pode saltar de R$ 0,64/kWh para R$ 0,76/kWh.
O que poucas propostas comerciais de energia solar explicam é que esse reajuste não é um evento isolado. É o resultado de um ciclo regulatório de cinco anos que recalcula todos os custos da distribuidora, com base em investimentos realizados, custos operacionais eficientes e uma série de componentes financeiros que rodam em paralelo. E a parte mais importante: quem está no mercado cativo paga a conta inteira. Quem migrou para a geração distribuída paga só uma parte.
De onde vêm os 19,2% — a anatomia do aumento
A tarifa de energia é dividida em Parcela A (custos não gerenciáveis, como compra de energia e transmissão) e Parcela B (custos gerenciáveis, como operação, manutenção e remuneração dos investimentos). Na revisão tarifária periódica, a ANEEL redefine a Parcela B com base numa empresa de referência fictícia — o chamado benchmarking regulatório.
Os números da Copel 2026:
- Reposicionamento das Parcelas A e B: 10,34% de impacto
- Retirada dos componentes financeiros do ciclo anterior: +9,96%
- Inclusão dos componentes financeiros atuais: -1,11%
- Nova cota da CDE Uso: +3,21% (agora inclui custos da geração distribuída, conforme Lei 15.269/2025)
- Custos de transmissão: +1,09%
- Remuneração do capital (investimentos): +6,54%
A Parcela B sozinha — que representa 31,8% dos custos da Copel — variou 32,6%, gerando impacto tarifário de 8,61%. A remuneração do capital aumentou 73% em relação aos valores atuais, refletindo os investimentos realizados pela empresa no ciclo.
O detalhe que muda tudo: a Copel solicitou diferimento de R$ 1,095 bilhão. Sem essa manobra, o aumento médio seria de 26,71%. O diferimento atenua o impacto agora, mas esses valores serão recuperados em ciclos futuros — o clássico "empurrar com a barriga" do setor elétrico.
Alta tensão vs. baixa tensão: quem paga mais
A proposta da ANEEL mostra um viés claro: consumidores de alta tensão (grupo A) terão impacto médio de 19,55%, enquanto os de baixa tensão (grupo B) ficarão com 19,03%. A diferença parece pequena, mas em valores absolutos representa milhões de reais a mais para indústrias e comércios de maior porte.
Para o consumidor residencial típico, a conta salta de R$ 0,64/kWh para R$ 0,76/kWh — um acréscimo de R$ 0,12 por quilowatt-hora. Num consumo mensal de 300 kWh, são R$ 36 a mais por mês, R$ 432 no ano.
O que o marketing de energia solar não conta sobre reajustes
Toda proposta comercial de geração distribuída que você recebe menciona "proteção contra reajustes tarifários". É verdade, mas incompleta.
A proteção real funciona assim: quando a tarifa sobe, o valor em reais dos créditos de energia que você recebe via SCEE também sobe proporcionalmente. Se você compensa 500 kWh/mês a R$ 0,64/kWh, recebe R$ 320 de abatimento. Com a tarifa a R$ 0,76/kWh, o mesmo abatimento vale R$ 380 — uma proteção de R$ 60/mês contra o aumento.
Porém, e sempre há um porém no setor elétrico brasileiro, essa proteção não é total. Quem está no regime GD II (entrou após janeiro de 2023) paga o Fio B sobre a energia compensada — em 2026, são 60% da TUSD Fio B. Ou seja: do aumento tarifário, você captura 100% sobre a TE (tarifa de energia), mas só 40% sobre a TUSD Fio B. A conta fica mais complexa, e a economia real menor do que a prometida.
Aqui está onde a maioria das cooperativas de energia falha: oferecem desconto fixo de 12-15% sem explicar que, num reajuste de 19,2%, parte desse desconto some porque o Fio B não é integralmente compensado. Na OpenGD, o modelo é diferente: o gerador absorve o impacto do Fio B, e o cooperado recebe desconto fixo calculado sobre a tarifa cheia — incluindo o reajuste. A conta fecha diferente.
Perdas regulatórias: o custo invisível que também sobe
A ANEEL definiu as perdas técnicas da Copel em 6,208% sobre a energia injetada. Perdas não técnicas ficaram em 5,240% sobre o mercado de baixa tensão, sem trajetória de redução até 2030. Esses percentuais são embutidos na tarifa — quando a tarifa sobe 19,2%, o custo das perdas também sobe na mesma proporção.
Para quem tem geração própria, há um efeito colateral: a energia que você injeta na rede sofre as perdas técnicas antes de virar crédito. Se injeta 100 kWh, o crédito é calculado sobre ~93,8 kWh. Com o reajuste, o valor por kWh sobe, mas a quantidade creditada continua afetada pelas perdas.
Cronograma e como participar da consulta pública
- Consulta pública: até 22 de maio de 2026
- Audiência presencial: 29 de abril de 2026, UTFPR Campus Curitiba
- Entrada em vigor: 24 de junho de 2026
Contribuições podem ser enviadas para:
- cp005_2026rv@aneel.gov.br (revisão tarifária)
- cp005_2026et@aneel.gov.br (estrutura tarifária)
- cp005_2026pt@aneel.gov.br (perdas técnicas)
A audiência será transmitida pelo canal da ANEEL no YouTube.
Leitura OpenGD: por que reajuste tarifário é argumento a favor da GD, mas com ressalvas
O reajuste da Copel 2026 é o tipo de notícia que deveria inundar o mercado de geração distribuída de propostas. Aumento de 19,2% é um gatilho comercial poderoso. Mas a engenharia por trás da compensação de energia exige que a explicação seja completa.
A proteção contra reajustes existe, mas é parcial para quem está no GD II (a maioria dos novos contratos). O Fio B de 60% em 2026 significa que, do aumento da TUSD, só 40% são efetivamente compensados. Quem vende "blindagem total" está simplificando o que não pode ser simplificado.
Para o consumidor paranaense, a equação é clara: ou paga 19,2% a mais na conta da Copel, ou migra para um modelo de geração distribuída que ofereça desconto real calculado sobre a tarifa cheia — incluindo o reajuste. A diferença entre as opções está na letra miúda do contrato, no cálculo do Fio B e na transparência do rateio.
Enquanto a ANEEL discute porcentagens em Curitiba, 5,29 milhões de unidades consumidoras no Paraná precisam decidir como vão pagar a conta de luz nos próximos cinco anos. A geração distribuída é a única alternativa regulada que oferece algum controle sobre esse custo. Mas exige que quem oferece o serviço mostre a conta — com todos os componentes tarifários, inclusive os que não são compensados.