A ANEEL abriu nesta terça-feira, 7 de abril de 2026, a consulta pública nº 005/2026 para discutir o reajuste Copel 2026 — a revisão tarifária periódica (RTP) que propõe aumento médio de 19,20% nas tarifas da distribuidora paranaense. As novas tarifas devem entrar em vigor em 24 de junho, impactando as cerca de 5,29 milhões de unidades consumidoras atendidas pela Copel no Paraná. O processo ficará em consulta entre 8 de abril e 22 de maio, com audiência presencial marcada para 29 de abril em Curitiba.
Segundo a ANEEL, os fatores que mais contribuíram para os índices de reajuste foram custos com transmissão de energia e encargos setoriais, além da retirada de componentes financeiros do processo tarifário anterior. Em 11 de março, a Copel enviou carta solicitando diferimento de R$ 1,095 bilhão, o que reduziu o efeito médio em aproximadamente 6,79%. Sem essa atenuação, o aumento seria de 26,71%.
A proposta indica impacto mais forte sobre consumidores de alta tensão (19,55%) que sobre baixa tensão (19,03%). Para o consumidor residencial, a tarifa atual de R$ 0,64/kWh pode chegar a R$ 0,76/kWh.
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## Como a revisão tarifária periódica funciona — e por que o aumento é de 19,2%
A revisão tarifária periódica (RTP) é o processo mais completo de ajuste de tarifas no setor elétrico brasileiro. Ocorre a cada quatro ou cinco anos, dependendo do contrato de concessão — no caso da Copel, são cinco anos. A última RTP da empresa foi em 2021, com aumento de 9,8%.
Diferente do reajuste tarifário anual (que apenas repassa inflação e ajusta custos da Parcela A), a RTP redefine o nível eficiente dos custos operacionais e a remuneração dos investimentos da distribuidora — itens que compõem a Parcela B da tarifa. É aqui que a ANEEL aplica benchmarking regulatório: compara os custos reais da Copel com os de uma empresa de referência fictícia, definindo o que seria "eficiente" para o negócio.
O efeito médio de 19,20% resulta de três fatores principais:
1. **Reposicionamento dos custos das Parcelas A e B** — contribui com 10,34%
2. **Inclusão dos componentes financeiros apurados no processo vigente** — impacto de -1,11%
3. **Retirada dos componentes financeiros definidos no ciclo anterior** — adiciona 9,96%
A Parcela B, que representa 31,8% dos custos da Copel, apresentou variação de 32,6% — isso significa impacto tarifário de 8,61%. A remuneração do capital variou 73% em relação aos valores atuais, representando 6,54% do aumento. Já a cota de reintegração regulatória variou 54,4%, com impacto de 2,17%.
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## O que mais pesa na conta — e por que a CDE mudou de lugar
Além dos componentes estruturais, dois itens merecem atenção:
**Encargos setoriais** levaram a variação de 0,79% no efeito médio, com destaque para a nova cota da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) Uso definida para a distribuidora — impacto de 3,21%. Esse aumento está diretamente relacionado à Lei 15.269/2025 (ex-MP 1.300/2025), que estabeleceu que os custos da CDE geração distribuída sejam compartilhados por todos os consumidores, tanto do mercado cativo quanto do livre. Com a mudança, a CDE GD deixa de ser categoria separada e passa a fazer parte do orçamento da CDE Uso.
**Custos de transmissão** impactaram o efeito médio em 1,09%. **Custos de compra de energia** tiveram variação negativa de -0,27%.
**Perdas da Copel** foram calculadas com base no Módulo 7 do PRODIST: perdas técnicas de 6,208% em relação à energia injetada; perdas não técnicas de 5,240% sobre o mercado de baixa tensão faturado, sem trajetória de redução até 2030.
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## Alta tensão versus baixa tensão — quem paga mais
A proposta da ANEEL mostra distribuição desigual do impacto:
- **Consumidores de alta tensão (grupo A)**: efeito médio de 19,55%
- **Consumidores de baixa tensão (grupo B)**: efeito médio de 19,03%
A diferença de 0,52 ponto percentual reflete a estrutura de custos: o grupo A responde por parte significativa do consumo energético, mas tem menor participação nos custos fixos de distribuição por unidade de energia. Para o grupo B, a fatia da Parcela B na tarifa é proporcionalmente maior.
Na prática: uma indústria que paga R$ 50.000/mês de conta de luz terá aumento de aproximadamente R$ 9.775. Uma residência com conta de R$ 300/mês terá aumento de cerca de R$ 57.
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## O diferimento de R$ 1,095 bilhão — e o que aconteceria sem ele
Em 11 de março de 2026, a Copel enviou carta à ANEEL solicitando diferimento de R$ 1,095 bilhão. O mecanismo permite que parte dos custos seja reconhecida em ciclo tarifário futuro, amortecendo o impacto imediato.
Sem o diferimento, o efeito médio preliminar calculado pela ANEEL seria de 26,71% — 7,51 pontos percentuais acima da proposta atual. O pedido da Copel, portanto, reduziu o aumento em aproximadamente um quarto.
Isso não significa que o custo desapareceu. Será incorporado em revisões futuras, com juros regulatórios. É uma decisão de caixa: melhor aumentar 19,2% agora e 26,71% depois, ou 26,71% de uma vez?
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## Como o reajuste Copel 2026 afeta quem tem geração distribuída
Para consumidores com geração própria ou participantes de geração compartilhada, o aumento tem efeito assimétrico:
**A energia consumida da rede fica mais cara** — cada kWh pago à Copel custará 19,2% a mais, em média.
**Os créditos do SCEE continuam valendo o mesmo** — a compensação é feita em kWh, não em reais. Um crédito de 100 kWh abate 100 kWh do consumo, independentemente do valor da tarifa.
**Resultado líquido**: a economia proporcionada pela geração distribuída aumenta. Se antes você compensava 100 kWh que valiam R$ 64, agora compensa 100 kWh que valem R$ 76. A diferença de R$ 12 é ganho adicional.
Na OpenGD, onde o desconto para o cooperado é fixo (não percentual), o reajuste tarifário não altera o valor pago pelo participante. Quem absorve a variação é o gerador. Em modelos de percentual fixo (ex: "15% de desconto"), o consumidor sente o aumento na parcela não descontada.
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## Cronograma e como participar da consulta pública
- **Consulta pública (CP 005/2026)**: 8 de abril a 22 de maio de 2026
- **Audiência presencial**: 29 de abril de 2026, UTFPR Campus Curitiba
- **Vigência das novas tarifas**: a partir de 24 de junho de 2026
Para contribuir:
- Tema Revisão Tarifária: cp005_2026rv@aneel.gov.br
- Tema Estrutura Tarifária: cp005_2026et@aneel.gov.br
- Tema Perdas Técnicas: cp005_2026pt@aneel.gov.br
Documentações e detalhes na página da [Audiência 002/2026](https://www.aneel.gov.br/audiencias-publicas/audiencia-002-2026).
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## Leitura OpenGD: por que reajustes como este tornam a geração compartilhada mais estratégica
Revisões tarifárias periódicas de dois dígitos não são acidente — são feature do sistema. A Parcela B, que responde por quase um terço da tarifa, é reajustada com base em custos regulatórios que a ANEEL define como "eficientes". O consumidor paga a conta dos investimentos que a distribuidora fez (ou deveria ter feito) nos últimos cinco anos.
Para empresas e residências do Paraná, o aumento de 19,2% a partir de junho é mais um capítulo na escalada de custos energéticos. A diferença é que, desta vez, quem tem alternativa — geração própria ou compartilhada — sai menos machucado.
Na OpenGD, operamos no Paraná via Integra Cooperativa de Energia Solar. O modelo de desconto fixo significa que, enquanto a tarifa da Copel sobe, o valor pelo cooperado permanece estável. A economia relativa aumenta sem que o consumidor precise fazer nova conta.
O setor elétrico brasileiro é complexo por design. Revisões tarifárias como a da Copel 2026 mostram por que entender essa complexidade — e ter alternativas fora do mercado cativo — deixou de ser opção para virar necessidade.